tchau pro meu apto
29 de abril
estou me despedindo do meu apartamento. faz quase uma semana que eu deveria estar desmontando tudo nele. decidi que vou descrever ele. depois vou descrever eu. depois vou começar a tirar as coisas da primeira gaveta.
eu moro num condomínio de prédios muito perto da faculdade. ele é estranho porque foi delimitado depois da construção dos prédios. ou seja, inicialmente ele não deveria ser um condomínio. tem uma penca de prédios parecidos nessa região, todos construídos no mesmo ano e separados por blocos de letra e número, e em algum momento uns 10 ou 12 deles decidiram que era hora de ter um muro cercando eles. e um porteiro pra pegar as encomendas. e talvez uma churrasqueira (embora eu nunca tenha visto ela em ação). mas aí veio um impasse: no meio desses prédios, tinham outros prédios que não queriam participar disso. eles eram o bloco f. todos os outros prédios (incluindo o que abriga meu apartamento, o g2) decidiram fechar o condomínio mesmo assim e não cobrar nada desse bloco. então o interfone ligava todos os blocos (não o f); as encomendas eram guardadas para todos os blocos (menos o f); as faxineiras limpavam todos os blocos (menos o f);
todos os prédios são um pouco diferentes e um pouco parecidos. eles são prédios de três andares com 8 apartamentos por andar com cores diferentes, orientações diferentes, portas diferentes. os prédios pra cima do morro que tem no condomínio (esqueci de mencionar) são muito mais bonitos. demorei uns 6 meses pra subir ver (depois disso, nunca mais fui lá). eles têm até uma praça só pra eles. os prédios têm muito vidro na parte de baixo, e a área comum tem sofá e tudo mais. fiquei com muita inveja. o meu prédio tem um portão de madeira e umas plantas na área comum. ele fica de frente para o prédio da minha vizinha, que é um f, e que tem portões brancos e bem feios. do meu lado, se eu deixo a janela aberta depois das 18 horas, entra muito mosquito, e no dela não. no lado dela tem muita barata, e no meu não.
no meu prédio, ainda, aquele que tem o portão marrom e as plantas, tem mais algumas pessoas que eu conheço. no primeiro andar, mora uma senhorinha (e o apartamento dela é o melhor do prédio, porque em todos eles tem um cantinho só, no primeiro andar, que possibilita a existência de uma sacadinha). essa senhorinha (e eu vou explicar melhor depois) é a sogra do filho da ex dona do meu apartamento. a sacadinha dela é cheia de plantas, e ela cuida das plantas do prédio, que também são dela. tem a minha vizinha de porta, que é uma menina mais nova que eu e eu sei disso porque quando eu tava me mudando (e ela tinha acabado de se mudar também) eu insisti que dividíssemos uma rede de wifi. ela demorou muito pra me responder e quando bati na porta para pedir abridor de garrafa fingiu que não tava em casa. no final, nós dividimos wifi, e eu cuidei do gato dela umas 3 vezes em que ela viajou. nenhuma outra interação. ela cobra o pix da internet ocasionalmente. e a senha dela é marialucia05. do outro lado, ainda no meu andar, mora uma menina muito querida e quieta. ela tem um cachorro que já pulou em mim algumas vezes, naquelas horas (que acontecem muito aqui no prédio) em que dois moradores abrem o portão ao mesmo tempo, um por dentro e um por fora. a gente sempre se dá oi, sorrindo e acenando, em vários lugares além do prédio, mas eu nunca falei com ela. ouvi que ela fazia programa, mas não sei se é verdade. no andar ainda tem um casal de gays que me emprestaram o abridor quando a vizinha não quis. tem um apartamento perto do meu que é rotativo. atualmente não sem quem mora lá. a janela da cozinha dele tem visão direta para a minha janela da sala. quando eu tinha acabado de me mudar, era um casal com uma filha. o marido era fumante e toda manhã estava na janela da cozinha. foi muito bom, porque eu não me senti sozinha nos primeiros meses. ele sempre me dava bom dia, e eu sempre dava bom dia pra ele. foi meio ruim porque nas primeiras vezes eu estava pelada.
da mesma sacada da sala, eu consigo enxergar outro prédio, um pouco na diagonal. nele, mora um casal que eu nunca vi de perto. mas sei que eles brigam constantemente, gritando muito. eu só parei para ver nas primeiras 5 vezes, e eu só lembro bem do motivo da primeira vez que vi. eles estavam brigando sobre a janela deles. ele abria e ela fechava, ele abria de novo, ela gritava com ele, ela fechava. já perguntei pro porteiro e ele disse que todo mundo comenta, e que já chamaram a polícia. mas não dá em nada. neste prédio também tem um outro gay que um dia surtou gritando com um moço da prefeitura que estava cortando grama do outro lado da avenida (que passa do lado do condomínio) às 2 da manhã de um domingo. nunca mais cortaram nesse horário e eu nunca mais vi ele.
no meu apartamento tem 4 cômodos: a cozinha, a sala, o banheiro e o quarto. eu aluguei ele da dona nádia, casada com um argentino chamado raul. quem morava antes aqui era o eduardo e a sua namorada e seus 2 cachorros enormes. quando eu visitei, tinha papel higiênico na casa inteira, e a parede era verde bebê. quando aluguei, o apartamento tinha uma mesa com três cadeiras, um armário de madeira, uma mesinha de canto, uma lixeira de banheiro, uma cama sem colchão, um jimo cupim, algumas seringas, e um tapete da série friends (que está ali até hoje, e eu nunca nem lavei. ocasionalmente a faxineira some com ele e ele aparece ali. me dá esperança de que ele não volte. acho que ela lava ele). a nadia mandou fazer um colchão e trouxe de um depósito da casa dela uma geladeira mofada e um fogão enferrujado, que eu e minha amiga passamos o dia limpando quando me mudei. minha vó me deu o sofá dela, uma escrivaninha, um armário que ficou na sala e alguns materiais de cozinha cama e banho. minha tia me deu outros materiais de casa, que serviram como decoração. as almofadas e mesas de canto e banco. ela também me deu um microondas. meu tio me deu minha primeira panela e minha torradeira. eu trouxe uma mesinha baixa de casa, junto de algumas louças e talheres e roupas de mesa e cama e banho. a dona nádia mandava mensagens para mim e o raul cobrava o aluguel. ele tinha um jeito particular de se comunicar, mas eu me acostumei. uma vez ele elogiou minha nova foto do whatsapp. depois de um tempo ele ficou muito doente e eles precisaram vender o apartamento para pagar o tratamento dele. abri para algumas pessoas visitarem e em uma destas visitas conheci a nara. a nara viu esse apartamento em 20 minutos e comprou ele. ela continuou alugando para mim. a nádia falou que eu poderia ficar com os móveis enquanto estivesse aqui, porque ela sentiu muita culpa de vender ele comigo dentro (por conta da possibilidade de eu ser despejada). eu gosto mais da nádia do que da nara. ela veio me visitar e contou que a senhorinha, sogra do filho dela, adorou o quadrinho que colei na porta.
a cozinha foi um desafio para mim. comprei uma máquina de lavar por uns 150 reais e um móvel pra me dar mais apoio. meu fogão era muito ruim e depois de um tempo a geladeira começou a congelar tudo. eu não fiz nada a respeito porque vou me mudar. eu arranquei fora a tela que tinha na janela para poder pendurar as roupas o varal externo e elas não ficarem com cheiro de molhado seco.
na sala, colei um monte de coisas nas paredes. em algum momento, um vizinho me deu um espelho. mas o espelho é tão cru e pesado que onde ele colocou, ficou. na parede do espelho, não tem nada colado. só tem marcas de tinta de uns quadros que pintei para vender e umas colagens com papel de parede e tinta penduradas em um gancho. na parede colada com a cozinha, tem, em ordem: um quadro de uma menina olhando no espelho que fiz morando na minha vó que todo mundo ama elogiar; embaixo dele, tem 3 quadrinhos (até agora tudo chapa de mdf) que eram estudos para os grandes que pintei para vender em alguma ocasião, e que achei charmoso; uma pintura em guache da emília do sitio do picapau amarelo, que eu fiz num papel de caderno; um desenho que minha prima fez da minha cara no meu aniversário. eu estou com olhos enormes e uma boca minúscula (mais do que o normal, que já é acentuado). eu gosto muito dele; uma pintura num recorte de papelão feita pela minha amiga brenda. foi de aniversário e é um retrato da anya taylor joy; embaixo outra pintura da brenda, de um personagem do universo dela que eu batizei de beto; e, do lado, uma pintura que fiz da minha avó cuidando de um pássaro numa gaiola. caído tem um treco amorfo que fiz e desenhei uma vaca pastando. costumava estar na parede.
na frente dessa parede, tem outra com coisas coladas. essa é mais difícil de descrever em ordem, então vou só listar: uma pintura de uma mulher sentada de costas, minha; um print de uma pintura do velasquez da vênus ao espelho; quatro fotografias da barriga costurada do meu pai; um retrato do meu pai tomando sopa; um desenho de carvão numa tampa de marmita de uma mulher deitada de costas; dois retratos em carvão de duas mulheres do pinterest; um estudo de um desenho do egon schiele; uma microfotografia do sangue de uma desconhecida; um print de a estrela, do degas; um print de a roda de toulouse lautrec; uma pintura a óleo da minha prima de casaco de pelos.
o banheiro tem um chuveiro bem bom, mas uma pressão bem mais ou menos. o maior problema é o box de plástico escuro e a privada e pia terracota. mas é um banheiro ok e eu adoro cantar karaoke no banho, com meu celular na janela. as vezes eu lembro que ouço tudo que os vizinhos falam e fico com vergonha. colei uma gravura de uma colega minha na parede.
o quarto tem um ar condicionado que já me salvou muito, mas que hoje solta muita água e eu também não arrumei. nele, no quarto não no ar, tem uma pintura enorme do meu avô pescando em uma parede (que meu pai elogiou uma vez e eu optei por não contar que era meu vô. em outra ocasião ele falou que parecia o meu vô. eu, evidentemente, não falei nada a respeito. depois disso ele não comentou mais sobre) e na outra vários prints do goya e do velasquez (que eu comprei num sebo por uns 5 conto a caixa, e depois visitei o museo do prado e descobri que era muito caro). tem um espelho na minha escrivaninha e um negócio para pendurar bolsas. o quarto pega uma boa luz de tarde. a sala pega um pouco menos.
eu coloquei várias plantinhas na janela (mais especificamente, um manjericão com melão (que brotou porque eu fui meio porca), uma rosa do deserto, uma espada de são jorge e uma orquídea). tenho o costume de escancarar as janelas para pegar um ar e fechar todas imediatamente às 18h (porque eu não sou janta). minha vizinha roubou uma cadeira, e era uma cadeira daquelas que a nádia deixou no apartamento. ela devolveu nessa semana.
descobri muito ao me mudar. passei por ótimos períodos e menos ótimos períodos. teve vez que minha casa esteve tão bagunçada que eu tinha vergonha de abrir a janela da sala e do quarto e os meus vizinhos verem a loucura. não conseguia tirar as roupas do chão ou da mesa. tudo isso passou. eventualmente arrumei tudo e tive que pedir ajuda de uma faxineira (e da minha prima) para começar do zero. hoje em dia arrumo tudo a tempo de não precisar fechar a cortina verde que minha vó odiou.
descobri que funciono melhor de tarde do que de manhã, e que preciso me esforçar muito para manter as coisas organizadas. comprei um robô de limpeza, paguei uns 300 reais, e coloco ele pra aspirar sempre. a recomendação foi da manu, e agradeço sempre que vejo a sujeira que ele tira. tenho dificuldade de entender o momento certo de ir dormir, e de ir jantar. achei que teria mais gente visitando, mas barrei minhas visitas na época que tava surtando com falta de organização. tive bons momentos aqui, e queria ter convidado mais as pessoas para passar tardes comigo. agora todo mundo trabalha e não dá muito tempo. fiquei muito feliz que meus pais vieram visitar na minha graduação. fiquei especialmente feliz de tomar café da manhã com minha mãe aqui em casa.